Destilaria Três Pedras transforma história, território e tradição em cachaças artesanais no interior paulista

5–7 minutos

Nascida em Bofete, na região da Cuesta Paulista, empresa une produção artesanal, identidade regional, sustentabilidade e experiências ligadas ao turismo da cachaça

Entre formações rochosas, paisagens rurais e uma tradição que mantém forte ligação com a terra, a Destilaria Três Pedras construiu sua história em Bofete, no interior de São Paulo. Mais do que produzir cachaça artesanal, a empresa encontrou no território onde nasceu a inspiração para desenvolver uma marca que procura traduzir parte da identidade e da cultura da região.

A origem da Três Pedras está diretamente ligada às formações geológicas características do município. Segundo a própria destilaria, a marca nasceu como uma homenagem à região e à história de um povoado acostumado a conviver e admirar essas paisagens naturais. A proposta, desde o início, foi fazer com que a bebida carregasse também uma conexão com suas origens.

Fundada em 2018, a empresa é associada aos empreendedores Luciano e Rosângela Souza e desenvolveu sua produção artesanal no Alambique Moenda Velha, em uma propriedade rural de Bofete.

Da terra para o alambique

A história da Três Pedras começa antes mesmo da destilação.

A produção tem início nos próprios canaviais, onde são utilizadas diferentes variedades de cana selecionadas e adaptadas às condições da região. A empresa trabalha com mudas pré-brotadas, conhecidas como MPB, buscando controle e qualidade desde a origem da matéria-prima.

A colheita é realizada manualmente e, depois do corte, a cana segue rapidamente para a moagem. Esse intervalo reduzido entre campo e processamento é importante para preservar as características do caldo que será encaminhado para a fermentação.

Na etapa seguinte entram em cena leveduras selecionadas e exclusivas utilizadas pelo engenho. São elas que transformam os açúcares presentes no caldo em álcool e também contribuem para a formação dos aromas e sabores que mais tarde aparecerão na bebida.

O líquido fermentado, chamado de vinho, passa então pela destilação em alambique de cobre.

É nesse momento que uma das etapas mais delicadas da produção acontece: a separação das diferentes frações do destilado. A chamada “cabeça”, correspondente aos primeiros volumes, é descartada. Na sequência é recolhido o “coração”, considerado a parte nobre da destilação, enquanto a fração final, conhecida como “cauda”, também é separada.

Depois da destilação, a cachaça permanece inicialmente em tanques de aço inox, onde descansa antes de seguir para diferentes caminhos dentro da produção.

O tempo e a madeira ajudam a construir os sabores

Parte da produção permanece em inox e dá origem à Três Pedras Clássica.

Outra parcela é destinada ao envelhecimento e à maturação em barris selecionados. Entre as madeiras utilizadas pela destilaria estão Carvalho, Amburana e Jequitibá, que imprimem características próprias de cor, aroma e sabor ao destilado. O período de maturação declarado pela empresa começa em pelo menos um ano.

A relação entre madeira, tempo e bebida tornou-se um dos elementos centrais do portfólio da marca.

Há ainda produções especiais utilizando Araribá. Rótulos da Três Pedras envelhecidos nessa madeira brasileira passaram a figurar em concursos e ações de divulgação da cachaça paulista.

Antes de chegar às garrafas, as bebidas passam pela etapa de padronização. De acordo com a destilaria, seus produtos são ajustados para graduação alcoólica de 42% e posteriormente engarrafados e rotulados individualmente.

Reconhecimento para uma produção que nasceu no interior

O crescimento da Três Pedras também passou a ser acompanhado por premiações.

No II Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista, realizado em 2025, a marca conquistou diferentes reconhecimentos. A Três Pedras Carvalho recebeu medalha de ouro na categoria de cachaças envelhecidas em barris de carvalho. O rótulo Três Pedras Araribá conquistou prata na categoria de envelhecidas em madeiras brasileiras, enquanto outros produtos da destilaria também apareceram entre os premiados.

O reconhecimento ajuda a colocar Bofete no mapa de uma produção que vem buscando valorizar a cachaça paulista não apenas como bebida, mas como produto ligado à agricultura, à gastronomia, à cultura e ao território.

Em 2023, a própria Câmara Municipal de Bofete aprovou uma Moção de Aplausos dirigida à Cachaça Três Pedras e aos empreendedores responsáveis pelo negócio, citando a divulgação do município e o empreendedorismo rural desenvolvido pela empresa.

Sustentabilidade também entra na produção

A preocupação ambiental aparece em diferentes pontos da operação.

A destilaria informa que trabalha com logística reversa das embalagens certificada pelo selo eureciclo. Também afirma utilizar madeiras provenientes de fontes controladas, incluindo iniciativas relacionadas a reflorestamento e reposição dos recursos utilizados.

Essa combinação entre produção artesanal, origem da matéria-prima e práticas ambientais reforça um movimento cada vez mais presente entre pequenos produtores brasileiros: transformar produtos regionais em experiências capazes de contar a história do lugar onde são produzidos.

Da produção artesanal ao turismo de experiência

A Três Pedras também encontrou no turismo uma extensão natural de sua história.

O alambique recebe visitantes mediante agendamento, permitindo conhecer etapas da produção e participar de experiências de degustação. A propriedade está inserida em uma região marcada pelas paisagens da Cuesta Paulista, aproximando a cachaça de outros segmentos, como turismo rural, gastronomia e experiências de natureza.

Essa vocação ganhou projeção com a inclusão da Três Pedras na Rota Itaqueri, Cuesta e Tietê, uma das rotas dedicadas à cachaça no Estado de São Paulo. Material oficial da iniciativa apresenta o Alambique Moenda Velha como um espaço que combina tradição, sustentabilidade e identidade cultural de Bofete e destaca a visitação guiada como uma das experiências disponíveis.

O movimento reforça uma tendência importante para o setor de hospitalidade: produtores artesanais deixando de atuar apenas como fornecedores de bebidas e passando a fazer parte da própria experiência turística de um destino.

Conhecer o canavial, entender o funcionamento de um alambique, descobrir o efeito de diferentes madeiras sobre a bebida e finalizar o passeio com uma degustação transforma o produto em memória de viagem.

Uma história engarrafada em Bofete

Da escolha das variedades de cana ao descanso em madeira, a trajetória da Destilaria Três Pedras mostra como uma pequena produção do interior paulista pode incorporar identidade territorial, técnicas artesanais e turismo em torno de um mesmo produto.

A marca nasceu olhando para as formações naturais que fazem parte da paisagem de Bofete. Anos depois, leva o nome dessa paisagem para dentro das garrafas e para consumidores que muitas vezes passam a conhecer a região justamente por meio da cachaça.

É uma história construída entre canaviais, alambiques, barris e pessoas — e que ajuda a mostrar que, quando gastronomia e território caminham juntos, uma bebida pode representar muito mais do que aquilo que está dentro da garrafa.


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