Associação Brasileira de Afroturismo ganha protagonismo na articulação de iniciativas voltadas à diversidade, representatividade e valorização da cultura afro-brasileira no turismo
Começarei este texto agradecendo através da sabedoria negra de referenciar aos nossos “mais velhos”: OBRIGADO AOS MEUS ANCESTRAIS PELA RESISTÊNCIA PARA NOSSA EXISTÊNCIA. Por mesmo em condições muito adversas, lutaram para proporcionar para a minha e futuras gerações negras a possibilidade de cada vez mais VIVER ao invés de sobreviver. Oxalá que cada vez mais possamos evoluir com a diversidade e inclusão racial em todos os setores da nossa sociedade para que a mesma não seja mais necessária.
Quando refletimos sobre as pautas de inclusão racial no Brasil, entendemos que o turismo nacional está muito atrás de outros setores econômicos do país, talvez por achar que o setor é “democrático”, devido a conviver com culturas diversas, que todos têm a possibilidade de atuar trabalhando ou desfrutando de experiências turísticas, mas na verdade se olharmos com maior atenção, temos muita exclusão dos minorizados sociais no turismo. Exclusão silenciosa, que mesmo vendo um perfil de clientes se maioria no consumo do turismo, não se questiona do por que, apenas normaliza e estabelece como status quo.
O AFROTURISMO, quando se trata da diversidade e inclusão racial no turismo vem para cumprir este papel de questionar está “normalização” da falta de pessoas negras praticando atividades turísticas conectadas a história, cultura e gastronomia negra, principalmente no Brasil, onde a maioria da população de auto declara negra. A negação desta realidade faz com que o afroturismo seja cada vez mais necessário para mudar esta situação em prol de verdadeiramente produzir um turismo para todos. Mas claro, como toda pauta de inclusão negra no país, a resistência é grande, por isto demorou anos para que o afroturismo começasse a ocupar espaços importantes no setor.
É importante reforçar que o afroturismo não vem para tirar o lugar de nenhum outro segmento do turismo, muito pelo contrário, para agregar, até mesmo aumentar a demanda do turística no país, pois através dele muitas pessoas negras se sentirão incentivadas a viajar mais, a praticar mais experiências turísticas, pois entende que não sofreram preconceito racial. Sim, assim como na sociedade brasileira no geral, também temos muito racismo no turismo brasileiro, na maioria das vezes disfarçado de “não foi bem isso que aconteceu”, “a pessoa negra entendeu errado”, etc. Infelizmente continuará acontecendo se o turismo não investir em treinamentos para ações antirracistas no setor.
Muitos não sabem que a história do racismo no Brasil está ligada ao turismo, mais precisamente a hotelaria. Desde da abolição da escravidão negra no país até 1950, não tinha nenhuma lei que combatia o racismo no país. E vale reforçar que nos anos 50 o país era divulgado falsamente como uma “democracia racial”, que não havia problemas entre brancos e negros, era o país do futuro. A artista norte americana Katherine Dunham foi convidada para se apresentar em turnê em julho de 1950 no Brasil, em São Paulo, no Teatro Municipal. Ao tentar se hospedar no luxuoso hotel Esplanada, que ficava ao lado do teatro, ela foi impedida por ser uma mulher negra. E este fato deu origem a Lei Afonso Arinos, primeira lei de combate ao racismo no país. Vou reforçar novamente, de 1888 até 1950 não exista lei que punia o racismo no Brasil.
E você que está lendo até agora, pode pensar, agora a hotelaria ficará atenta, não acontecerão novos casos de racismo no setor, certo? Infelizmente não, pois como já disse anteriormente neste texto, o racismo no Brasil, até hoje, em 2026, trabalha com negação e omissão. E a prova desta afirmação é que a primeira pessoa negra a utilizar a lei no país foi a jornalista negra Glória Maria… e sabem o porquê? Em 1970 ao tentar se hospedar em um hotel no Rio de Janeiro, ela acionou a polícia e utilizou a lei no processo contra o mesmo. Imagino que vocês estão pensando que depois destes dois fatos históricos, o setor aprendeu, mas não, até hoje se fizer uma busca rápida na internet encontrarão casos recentes.
Por isto, depois de muitos anos de conversas entre lideranças do afroturismo no Brasil, a formalização da ABRAFRO – Associação Brasileira do Afroturismo é tão importante, para ter uma referência de entidade que vai trabalhar em prol da evolução do afroturismo no país. Estamos honrando com muita humildade uma história que começa muito antes de nós, desde do turismo étnico racial das pioneiras até chegarmos no afroturismo atual que também está em definições, desenvolvimento e evolução.
Nos últimos anos o afroturismo tem recebido a muito apoio de grandes entidades do turismo, principalmente da Embratur, do Ministério do Turismo e secretarias estaduais de São Paulo, Mato Grosso do Sul, secretarias municipais de São Paulo, São Luiz e grandes eventos como WTM Latin América e Salão do Turismo. Apesar de todos os desafios, ano após ano vejo o afroturismo evoluindo de uma maneira de jamais imaginei, porém sonhei. E o afroturismo também significa LIBERDADE para pessoas negras de sentirem livres para praticarem o turismo sem medo. Viva o AFROTURISMO no Brasil.

Hubber Clemente, fundador e CEO da Afroturismo HUB, focada em inclusão e diversidade racial no turismo, 25 anos de carreira no setor, em grandes redes hoteleiras e empresas do turismo, participação em mais de 100 eventos sobre diversidade e inclusão no turismo, impactando mais de um mil profissionais do setor, presidente da ABRAFRO – Associação Brasileira do Afroturismo Brasileira, host do videocast Hotel Lobby Talks do Hotelier News









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